À frente do Instituto do Autismo (IDA) desde 2020, Kadu Lins acompanha a expansão da instituição, que hoje conta com 11 unidades em Pernambuco. Além dos atendimentos especializados, o IDA desenvolve iniciativas como a Colônia de Férias, a Corrida dos Morros e o Seminário Pernambucano de Autismo, que chega à segunda edição neste sábado (29), no Centro de Eventos do Recife, na Imbiribeira.
A proximidade do evento é também um ponto de partida para discutir questões que ultrapassam sua programação. Como conciliar gestão, crescimento e qualidade do atendimento? Quais barreiras ainda dificultam o acesso das famílias aos serviços? E qual o papel da informação na construção de uma sociedade mais preparada para conviver com pessoas autistas?
Nesta entrevista ao Espectro na Pauta, Kadu fala sobre sua experiência à frente do IDA, os desafios de empreender na área, a relação com famílias e profissionais e suas expectativas para o Seminário Pernambucano de Autismo.
Confira a conversa
Entrevista
Belisa Parente
Kadu, você é um empresário jovem e já inaugurou 11 unidades do Instituto do Autismo no estado de Pernambuco. Qual é o sentimento ao impactar positivamente tantas famílias?
Kadu Lins
O sentimento é de gratidão, de realização. Quem acompanha as rotinas neuroatípicas sabe o quanto é difícil e quantas batalhas as famílias travam todos os dias. Então, ser um facilitador dessa jornada, alguém que as ajuda levando informação de qualidade, terapias, consciência, amor e acolhimento, para que elas cada vez mais sejam protagonistas, é um sentimento muito forte e indescritível.
Deus tem colocado muita missão para a gente; temos nos esforçado muito para dar conta de tudo e poder ajudar cada vez mais famílias.
Belisa Parente
Empreender na área da saúde e da inclusão parece desafiador. Apesar dos direitos garantidos por lei, conflitos relacionados ao acesso e à continuidade das terapias ainda chegam à Justiça. Qual é a principal lição que você aprendeu como gestor diante dessa realidade?
Kadu Lins
De fato, empreender na saúde acaba sendo muito difícil, justamente porque, se você olhar o copo ali meio vazio, você estará olhando todas as dificuldades. Como se coloca preço na evolução de uma criança que tem atrasos motores e cognitivos?
Isso também vale para quem tem atraso de fala. Então o que eu digo para a minha equipe é que, se a gente levar sempre amor, ciência, conhecimento e acolhimento, a gente estará participando ativamente da evolução dessas crianças. Que, além de todas as necessidades relacionadas à interação social, ao desenvolvimento e à comunicação, a gente ainda tem que encarar toda essa luta que é a justiça brasileira. A justiça brasileira, de fato, luta muito contra o sistema de saúde, quando deveria garantir os direitos à dignidade e à vida; então, na neurotipicidade, não é diferente.
Sem dúvidas, existem direitos que, diante de negativas ou descumprimentos, acabam precisando ser buscados judicialmente. Então, é mais um desafio, mais uma barreira que existe para elas. E a principal lição que tenho como gestor, nesse caso, é tentar sempre fazer o melhor com o que a gente tem disponível, nunca desanimar e pensar sempre que, se a gente fizer o nosso melhor, vamos cada vez mais transformar a vida do próximo. Se a gente focar nas dificuldades, a gente vai ter, sim, mais dificuldades.
Então, foque no que você consegue controlar, faça o melhor do seu trabalho e coloque muita ciência e amor que os resultados vêm.¹
Belisa Parente
Neste sábado (29), acontece a segunda edição do Seminário Pernambucano de Autismo. O que estudantes e profissionais podem esperar do evento? Pode adiantar algum dos temas que estarão em evidência?
Kadu Lins
Sobre o Seminário Pernambucano de Autismo, é um evento pelo qual a gente é apaixonado, justamente porque acreditamos que uma das maiores dificuldades quando falamos de autismo é levar informação de qualidade, embasada, consciente, e, ao mesmo tempo, com muita humanidade e amor. O evento já virou um marco para o nosso estado e só faz crescer.
Desta vez, a gente traz palestrantes nacionais renomados com diversos temas, como sinais, sintomas, genética, e TDAH. São temas que, de fato, as famílias precisam escutar, e de uma forma muito humanizada, sem apontar o dedo ou culpar ninguém, mas dizendo que a gente tá ali para criar uma grande rede de proteção e suporte. Para que a gente possa superar as dificuldades juntos e possa passar por cima de tudo o que aparecer, fazendo com que as nossas crianças, adolescentes e adultos atípicos se desenvolvam da melhor maneira possível.
Belisa Parente
Se você pudesse mudar apenas uma coisa na forma como a sociedade enxerga o autismo hoje, o que seria e por quê?
Kadu Lins
Na verdade, eu até vejo que a sociedade vem mudando o seu olhar para o autismo, justamente por conta das mudanças no modelo manicomial e do processo de desinstitucionalização ocorrido ao longo das últimas décadas no passado. Muitas pessoas autistas foram historicamente institucionalizadas e afastadas da convivência social, isoladas da sociedade, com tratamentos com punição e farmacológicos.²
Até tratamento de choque e restrição alimentar. Então — eu sou o grande otimista da mesa, eu já vejo essa evolução no tratamento do autismo. Mas se eu pudesse estalar os dedos, eu mudaria a forma como as pessoas criam preconceitos para com alguma coisa, mesmo sem saber nada sobre o tema. O autismo paga um preço muito alto pelos preconceitos que foram criados no século XX, em que o autista era alguém que vivia no seu próprio mundo ou alguém agressivo, que não podia compartilhar o mesmo ambiente de pessoas típicas.
O conceito de autismo evoluiu, e hoje as pessoas autistas precisam de oportunidades, e esse desenvolvimento também depende das condições oferecidas pela sociedade. Então, uma sociedade menos preconceituosa oferece às pessoas autistas mais oportunidades para participar, desenvolver sua autonomia e exercer seus direitos.
Conheça o trabalho do Kadu:
¹ Para entender melhor: desde 2022, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) determina a cobertura de métodos ou técnicas indicados pelo profissional responsável para o tratamento de beneficiários com transtornos globais do desenvolvimento, entre eles o TEA. A agência também eliminou o limite de sessões com psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas para usuários de planos regulamentados com cobertura ambulatorial. Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu que é abusiva a limitação do número de sessões dessas terapias quando prescritas a pacientes autistas. (Fontes: ANS e STJ).
² Contexto histórico: a institucionalização e o isolamento fizeram parte da história da assistência psiquiátrica no Brasil. O movimento da Reforma Psiquiátrica passou a questionar o modelo centrado nos hospitais psiquiátricos e nas práticas asilares. Em 2001, a Lei n.º 10.216 estabeleceu que a internação deve ser indicada quando os recursos extra-hospitalares forem insuficientes e determinou que o tratamento tenha como finalidade permanente a reinserção social. A própria compreensão do autismo também mudou ao longo do século XX. O termo “autístico” já havia sido empregado pelo psiquiatra Eugen Bleuler no contexto da esquizofrenia. Em 1943, Leo Kanner publicou a descrição de crianças com características que contribuíram para estabelecer o autismo como uma condição distinta da esquizofrenia infantil. A compreensão e os critérios diagnósticos continuaram mudando nas décadas seguintes. (Fonte: ANS, STJ e PubMed).