“Na minha época não tinha isso.”
“Agora todo mundo é autista.”
“Autismo virou moda.”
A percepção por trás dessas frases não surgiu do nada. Hoje encontramos mais pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mais conteúdo sobre autismo circulando nas redes sociais e mais adultos falando publicamente sobre diagnósticos recebidos depois dos 20, 30 ou 40 anos.
Os números também cresceram. No Brasil, o Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas que declararam ter recebido diagnóstico de autismo por um profissional de saúde. Elas representavam, na época, 1,2% da população brasileira. Foi a primeira vez que o Censo investigou o tema, por isso o País ainda não tem nessa pesquisa uma série histórica que permita comparar diretamente a prevalência nacional ao longo das décadas.

Nos Estados Unidos, onde existe acompanhamento há mais tempo, a mudança aparece com clareza. A Rede de Monitoramento de Autismo e Deficiências do Desenvolvimento (ADDM), mantida pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), identificava aproximadamente 1 criança autista para cada 150 crianças de 8 anos nas áreas monitoradas em 2000. Nos dados referentes a 2022, publicados em 2025, a proporção chegou a aproximadamente 1 em 31.

Isso não significa que uma em cada 31 crianças nos Estados Unidos tenha necessariamente um diagnóstico clínico formal de autismo. O dado vem de 16 comunidades monitoradas e não representa obrigatoriamente toda a população infantil norte-americana. O próprio CDC faz essa ressalva.
Ainda assim, existe uma pergunta legítima: por que estamos encontrando tantas pessoas autistas agora?
“Eu estava ali”
Para Marte, psicóloga de 30 anos que vive em Juiz de Fora, Minas Gerais, a resposta começa muito antes do diagnóstico.
Ela recebeu o laudo aos 27 anos, após a psiquiatra que acompanhava o seu quadro, de depressão e ansiedade, perceber que poderia haver algo além e a encaminhou para avaliação neuropsicológica. Mesmo várias das características que posteriormente foram investigadas e confirmadas estarem presentes desde a infância.
“Sempre fui uma criança muito quieta, principalmente na escola. Tinha dificuldade de interagir com as outras crianças, ficava muito isolada no recreio.”
O silêncio não despertava preocupação na escola. Pelo contrário: “Como a criança quieta costuma passar invisível para os professores, por não dar trabalho, ganhei uma medalha de ‘bom comportamento’ na escola. O ‘bom comportamento’ era só uma criança em sofrimento que não conseguia dar conta do mundo.”
Em casa, a interpretação era diferente. Dificuldade com determinados alimentos, roupas, cheiros, sons e mudanças eram entendidas como “frescura”, estresse ou comportamento difícil. No relato de Marte, essas características já estavam presentes muito antes dos 27 anos. O diagnóstico ofereceu uma nova maneira de compreendê-las. Ou seja, essa distinção ajuda a entender por que comparar simplesmente a quantidade de diagnósticos atuais com a de décadas anteriores pode produzir uma conclusão enganosa.
O autismo que procurávamos também mudou
O autismo nem sempre foi definido como é hoje. Embora descrições clínicas tenham aparecido anteriormente, no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, terceira edição (DSM-III), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 1980, o autismo apareceu como diagnóstico próprio. Antes disso, a história do diagnóstico passou inclusive por associações com a esquizofrenia infantil, que posteriormente foram abandonadas.
Nas décadas seguintes, os critérios foram novamente modificados. O DSM-IV trabalhou com diferentes categorias dentro dos chamados transtornos globais do desenvolvimento. Em 2013, o DSM-5 reorganizou diagnósticos anteriores, como transtorno autista e síndrome de Asperger, dentro da categoria transtorno do espectro autista.
- 1980
DSM-III
O autismo aparece como diagnóstico próprio.
- Introduz o Transtorno Autista como categoria diagnóstica.
- Os critérios se concentram em características específicas e início na infância.
- 1994
DSM-IV
Diferentes diagnósticos passam a integrar os transtornos globais do desenvolvimento.
- Inclui Transtorno Autista, Síndrome de Asperger e outras categorias.
- Reconhece diferentes apresentações clínicas.
- 2013
DSM-5
Os diagnósticos são reorganizados sob o Transtorno do Espectro Autista.
- Cria a categoria Transtorno do Espectro Autista (TEA).
- Reorganiza critérios e incorpora diferentes necessidades de suporte.
A mudança entre os manuais não representa simplesmente critérios progressivamente mais permissivos. As categorias e os próprios critérios diagnósticos também foram reorganizados.
Isso não significa simplesmente que os critérios ficaram progressivamente mais permissivos. Estudos comparando versões do DSM mostram uma história mais complicada. Algumas pessoas que preenchiam determinados critérios anteriores, por exemplo, poderiam não preencher os critérios do DSM-5. O ponto importante é outro: uma pessoa avaliada em 1980, 2000 e 2026 não encontra exatamente o mesmo conceito diagnóstico.
Também mudaram os instrumentos, o conhecimento acumulado, os serviços disponíveis e a maneira como profissionais procuram e registram o autismo.
O acesso à avaliação, porém, ainda pode ser uma barreira. Não existe um preço oficial para um laudo de autismo e, no atendimento particular, uma avaliação completa pode custar alguns milhares de reais, dependendo dos profissionais, instrumentos e número de sessões envolvidos. O diagnóstico é clínico e pode envolver uma equipe multiprofissional. Psicólogos também podem realizar avaliação psicológica e emitir laudo dentro de suas atribuições profissionais.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a orientação é procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que pode encaminhar a pessoa para serviços especializados.
Um estudo populacional, realizado na Dinamarca, ajudou a dimensionar o efeito dessas mudanças. Pesquisadores acompanharam 677.915 pessoas, nascidas entre 1980 e 1991, e estimaram que alterações nos critérios dos diagnósticos, e a posterior inclusão dos atendimentos ambulatoriais nos registros nacionais, foram estimadas pelos pesquisadores como responsáveis, conjuntamente, por cerca de 60% do aumento da prevalência registrada naquele conjunto específico de dados.
O número não pode ser transportado para o Brasil nem usado como explicação universal. O próprio estudo ressalta que seus resultados dizem respeito à população e ao sistema dinamarquês analisados, mas ele demonstra algo importante: mudar a maneira de diagnosticar e registrar uma condição pode alterar substancialmente quantas pessoas aparecem nas estatísticas.
Então onde estavam essas pessoas antes?
Kay tem 29 anos, é carioca, vive no Rio Grande do Norte e estuda cibersegurança. Também recebeu o diagnóstico aos 27. A investigação começou durante um período de burnout relacionado ao trabalho.
“Parecia muito óbvio que, para além do burnout de trabalho em si, tinha mais alguma coisa afetando a minha vida e relações.”
Quando voltou à própria infância, algumas situações ganharam outro significado. Kay lembra das dificuldades para compreender regras sociais que ninguém explicava diretamente. Quando criança, aprendeu que deveria demonstrar interesse quando alguém compartilhava alguma informação, mesmo quando não estava interessado no assunto.
Antes disso, suas características recebiam interpretações diferentes, dependendo de como eram percebidas pelas outras pessoas. Gostar de ler podia transformá-lo em “estudioso” ou “inteligente”. Dificuldades de socialização, rotina ou alimentação podiam transformá-lo em “preguiçoso”, “mal-educado”, “infantil”, “dramático” ou “arrogante”.
“As características eram sempre culpa minha, como se eu estivesse escolhendo ser desagradável e ‘estragar o clima’.”
Essa experiência não permite concluir que toda criança considerada tímida, difícil ou seletiva com alimentos seja autista. Características isoladas não estabelecem um diagnóstico. O próprio Ministério da Saúde lista sinais relacionados à interação social, comportamentos repetitivos, resistência à mudanças e hipersensibilidade ou hipossensibilidade aos estímulos, mas ressalta que esses sinais não garantem diagnóstico e indicam a necessidade de avaliação.
As histórias de Marte e Kay mostram outra coisa: pessoas que recebem diagnóstico adulto possuem uma história anterior ao laudo. E diagnóstico tardio não é um fenômeno apenas anedótico. Uma revisão sistemática publicada na Autism Research analisou 420 estudos produzidos entre 1989 e 2024 sobre diagnóstico tardio de autismo. Os pesquisadores encontraram tantas variações que sequer existe consenso na literatura sobre qual idade deve definir um diagnóstico como “tardio”.
Outra revisão sobre diagnóstico na idade adulta, constatou aumento da avaliação de adultos e encontrou, entre os temas recorrentes na literatura, diferenças de gênero, condições concomitantes, dificuldades no processo diagnóstico e as experiências das próprias pessoas ao receber o diagnóstico. Portanto, para a parte da pergunta: “Onde estavam essas pessoas?”, existe uma resposta simples: algumas estavam vivendo sem diagnóstico.
E a internet? Ela está fazendo todo mundo achar que é autista?
A internet aparece nas duas entrevistas, mas de maneiras bem diferentes. Marte tomou uma decisão deliberada quando surgiu a suspeita: “Eu evitei pesquisar sobre o assunto depois da suspeita porque tive medo de ‘contaminar’ a avaliação com viés de confirmação.”
Depois do diagnóstico, porém, encontrou nas comunidades um espaço para compreender experiências e estratégias de outras pessoas autistas. Kay teve uma relação mais ambivalente.
“Tem os aspectos positivos de você ver o relato de outras pessoas, sites educacionais e tudo mais, sem isso muita coisa teria passado batida por mim.”
Ao mesmo tempo, critica conteúdos que apresentam um único perfil como representação de todas as pessoas autistas e aqueles que transformam praticamente qualquer característica pessoal em manifestação do autismo. Essa preocupação encontra respaldo em pesquisas sobre informação nas redes.
Um estudo analisou 133 vídeos informativos mais vistos associados à hashtag #Autism no TikTok. Apenas 27% foram classificados pelos pesquisadores como precisos. Outros 41% foram classificados como imprecisos e 32% como generalizações excessivas. Os vídeos analisados somavam quase 199 milhões de visualizações.
O que apareceu nos 133 vídeos analisados?
O estudo avaliou vídeos informativos sobre autismo entre os mais visualizados na plataforma.
Importante: relatos pessoais foram excluídos do estudo.
Há uma ressalva essencial: o estudo avaliou vídeos que pretendiam transmitir informações sobre autismo. Relatos pessoais foram excluídos da análise. Portanto, o resultado não permite dizer que 73% de tudo o que pessoas autistas publicam no TikTok esteja errado.
Uma pesquisa mais recente sobre vídeos relacionados ao diagnóstico de autismo em adultos reforça justamente essa diferença. Boa parte do conteúdo analisado estava relacionada a experiências pessoais, mostrando que avaliar redes sociais apenas pela precisão clínica pode ignorar a função que esses espaços exercem para pessoas compartilharem suas próprias vivências.
A internet pode colocar uma hipótese na cabeça de alguém. Pode também espalhar informação incorreta. Nenhuma dessas coisas transforma um vídeo em diagnóstico. O Ministério da Saúde orienta que pessoas que buscam diagnóstico pelo Sistema Único de Saúde (SUS) procurem inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS), de onde podem ser encaminhadas para serviços especializados quando necessário.
Se diagnosticamos mais, significa que tudo é erro de diagnóstico?
Também não. A possibilidade de avaliações inadequadas não autoriza concluir que o crescimento dos diagnósticos seja resultado de uma “moda”. Da mesma maneira, reconhecer mudanças nos critérios e maior capacidade de identificação não permite afirmar que esses fatores expliquem absolutamente todo o aumento observado.
Até dentro dos Estados Unidos há diferenças enormes. Nos dados de 2022 da rede ADDM, a prevalência identificada entre crianças de 8 anos variou de aproximadamente 1 em 103 na área monitorada de Laredo, no Texas, a 1 em 19 na Califórnia. O CDC aponta diferenças nas práticas de avaliação e testagem como uma provável explicação para parte dessa variação e afirma que as pesquisas disponíveis não mostram que morar nessas comunidades, por si só, coloque uma criança em maior risco de desenvolver autismo.
A identificação varia entre as comunidades monitoradas
Diferenças nas práticas de avaliação e identificação podem contribuir para essa variação. Os números não indicam que viver em determinado local aumente o risco de autismo.
Isso mostra como os números dependem também de quem consegue chegar a uma avaliação e de como cada sistema identifica essas pessoas.
“Autismo virou moda?”
Marte conhece o argumento. Como psicóloga, considera legítimo que profissionais e pesquisadores discutam criticamente o crescimento dos diagnósticos e possíveis equívocos nas avaliações. O problema, para ela, aparece quando essa discussão vira instrumento para desconhecidos questionarem individualmente quem recebeu um diagnóstico.
“Não acho que cabe a pessoas leigas invalidarem o diagnóstico de outros ou repetirem frases como essa, porque são frases violentas para quem se entende dessa forma.”
Ela conta que já teve seu diagnóstico questionado ao usar o cordão de identificação e passou por perguntas invasivas. Algumas situações terminaram em crise e fizeram com que evitasse se identificar publicamente como autista.
“Acabo deixando de usar alguns direitos que teria por ser autista, por medo dessas situações acontecerem.”
Kay reage de outra maneira aos comentários cotidianos. Diz que normalmente ignora frases como “todo mundo é autista agora”. Sua preocupação aumenta quando discursos semelhantes aparecem associados a discussões sobre direitos das pessoas autistas. As duas experiências são diferentes. E talvez seja justamente importante que sejam.Nenhuma pessoa entrevistada representa todas as pessoas autistas.
O que sabemos, afinal?
Sabemos que os diagnósticos registrados aumentaram. Sabemos também que a definição clínica do autismo mudou ao longo das últimas décadas, assim como critérios, sistemas de registro, conhecimento profissional e formas de identificação. Há estudos mostrando que essas mudanças conseguem explicar parcelas substanciais do crescimento observado em determinadas populações.
Sabemos que existem pessoas chegando à vida adulta antes de receber um diagnóstico e que determinados grupos enfrentaram, e ainda enfrentam, barreiras específicas para serem identificados. Sabemos também que redes sociais misturam relatos pessoais, informação científica, generalizações e conteúdo incorreto. Reconhecer-se na experiência de outra pessoa pode motivar uma investigação, mas não substitui uma avaliação.
O que as evidências disponíveis não permitem é pegar todo esse fenômeno e reduzi-lo a uma explicação única.
Nem “agora todo mundo é autista”. Nem “todo o aumento aconteceu porque hoje diagnosticamos melhor”.
Para Marte, uma lembrança da infância talvez sintetize melhor o problema. A menina que não conversava, não brincava e praticamente não saía da carteira recebeu uma medalha por bom comportamento. Hoje ela olha para aquela criança de outra maneira:
“Uma criança de 7, 8 anos que não brinca, não fala, não faz perguntas para a professora, não se levanta da carteira em nenhum momento não é uma criança ideal, mas uma criança em sofrimento.”
Kay também voltaria à infância para mudar uma interpretação. Gostaria de dizer àquela versão de si mesmo que suas dificuldades não significavam que fosse preguiçoso, “fresco” ou uma pessoa ruim. São duas histórias individuais. Não provam por que a prevalência identificada de autismo cresceu e não devem ser usadas para isso. Elas ajudam a responder outra pergunta.
Quando alguém diz que “naquela época quase não existia autista”, talvez valha perguntar: quantas pessoas estavam ali, mas nós ainda não sabíamos o que estávamos procurando?
Fontes consultadas:
- IBGE: Censo 2022 contou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil
- CDC: dados e estatísticas sobre autismo
- CDC: relatório de prevalência e identificação precoce, dados de 2022
- Ministério da Saúde: informações e sinais relacionados ao TEA
- PubMed: revisão sobre diagnóstico tardio de autismo
- PubMed: revisão sobre diagnóstico de autismo na idade adulta
- PMC: história do diagnóstico de autismo, de Kanner ao DSM-5
- JAMA Pediatrics: mudanças nos registros e crescimento da prevalência na Dinamarca
- PubMed: revisão e meta-análise sobre gênero e diagnóstico de autismo
- PubMed: estudo sobre precisão de informações de autismo no TikTok
