Arquitetura multissensorial: espaços que acolhem, compreendem e incluem

Diretrizes arquitetônicas como ferramenta de autonomia e inclusão

Belisa Parente
08/23/2026 · 5 min de leitura Comentar
Perspectiva do espaço externo do centro, com caminhos entre áreas verdes e árvores de grande porte, bancos, edifícios e cobertura de madeira para circulação e convivência.
Proposta de espaço externo do Centro de Desenvolvimento para Crianças com TEA, concebido por Clara Brito para a Rua da Aurora, no Recife. (Crédito: Clara Beatriz Paulino de Brito, 2017).

Imagine viver em um mundo em que os espaços físicos não foram pensados para você e precisar lidar com isso ininterruptamente dia após dia. Então inclua os barulhos de uma cidade, seja ela grande ou pequena, de um prédio, de uma escola, de uma rua. E você ainda tem fotofobia, e, quando exposto à intensidade da luz, sente dor de cabeça, fica irritado, perde a concentração. Agora, junte todos esses fatores e temos alguns sintomas do espectro autista. 

Dá para imaginar o quão desafiador é viver em um mundo assim? O quanto deve machucar ao ponto de se desejar viver isolado de ambientes públicos e sem interação social? Pesquisas indicam que 90% das pessoas autistas apresentam essa hipersensibilidade, e em torno de 30%, o contrário, hipossensibilidade, sendo comum também a presença de perfis mistos. 

Uma iluminação regulável, o uso de cores em tons neutros, áreas destinadas à autorregulação, a seleção criteriosa do mobiliário, por exemplo, pode contribuir na redução do estresse, favorecer a participação nas terapias e promover o bem-estar do paciente durante o atendimento. Porém, na prática, os espaços públicos, privados, hospitais e clínicas especializadas ainda estão distantes desse ideal.

O ambiente também pode ser uma barreira

Ruído, reverberação, iluminação, temperatura, textura, circulação e organização espacial interferem na maneira como uma pessoa percebe e utiliza um ambiente.

Isso cria a ponte para a arquitetura. 

A arquitetura adaptada às necessidades sensoriais dos autistas tem como pioneira a arquiteta e pesquisadora egípcia Magda Mostafa, criadora do Autism ASPECTSS™ Design Index, em 2002 — até então não existiam diretrizes arquitetônicas fundamentadas em pesquisas científicas para ambientes destinados às pessoas autistas. 

O modelo considera sete princípios essenciais:

  1. Acústico: reduzir ruídos, ecos e reverberações para evitar sobrecarga sensorial.
  2. Sequenciamento espacial: organizar os ambientes em uma sequência lógica e previsível.
  3. Espaço de refúgio: oferecer locais tranquilos para pausa e autorregulação.
  4. Compartimentalização: definir claramente a função e os limites de cada ambiente.
  5. Espaços de transição: permitir adaptação gradual entre diferentes níveis de estímulo.
  6. Zoneamento sensorial: separar os ambientes conforme a intensidade dos estímulos.
  7. Segurança: reduzir os riscos físicos e favorece uma circulação mais segura.
Planta do centro com ambientes numerados e áreas demarcadas por linhas coloridas, indicando zonas de baixa e alta estimulação, jardim sensorial, circulação principal e nós de circulação.
Exemplo de zoneamento sensorial baseado nos princípios de Magda Mostafa. O espaço é organizado considerando diferentes níveis de estimulação e áreas de transição. (Fonte: MOSTAFA, 2014, modificado pela Clara Brito, 2017)
Clara Brito sentada em uma cadeira de madeira, sorrindo para a câmera, em ambiente interno com obra de arte e plantas ao fundo.
Clara Brito
(Foto: Lara Albuquerque)

A arquiteta e urbanista Clara Brito, da Araçá Arquitetura, desenvolveu, em 2017, um projeto arquitetônico adequado às necessidades dos autistas. 

A ideia surgiu a partir do conhecimento da realidade de ‘invisibilidade’ que as pessoas com TEA enfrentam. Na cidade do Recife, os espaços escolares não dão o suporte que elas precisam e espaços especializados não tinham uma arquitetura adequada para acolhê-las.

Clara Brito
Vista aérea da área próxima ao rio, mostrando a implantação do centro entre construções existentes e árvores de grande porte, com cobertura verde integrada à vegetação.
Vista aérea da proposta para o Centro de Desenvolvimento para Crianças com TEA, implantado na Rua da Aurora, no Recife. (Foto: Clara Brito)

Ela lembra como esses fatores podem prejudicar o desenvolvimento intelectual e distanciá-las ainda mais do convívio social.

Os principais pesquisadores da área, como Pallasmaa e Laureano, recomendam a utilização de iluminação e ventilação naturais, e mesmo em espaços fechados, uma brecha para se observar o transcorrer do dia e as condições externas do tempo. Devido à necessidade de previsibilidade das atividades pelos autistas. É recomendada também a utilização de materiais antiderrapantes e atérmicos, sistemas silenciosos de ventilação mecânica, o uso de emborrachados para isolamento e difusão sonora.

Dois diagramas em corte mostram a relação entre a nova arquitetura, a Rua da Aurora, o parque linear e o Rio Capibaribe; o primeiro representa a integração entre os espaços e o segundo, as linhas de visão para a paisagem.

Para se criar atmosferas sensoriais equilibradas, deve-se evitar excesso de cores e formas. Utilizar mobiliários com rodas para minimizar ruídos e estímulos aversivos, com quinas arredondadas e formatos orgânicos. Painéis sensoriais, setorização e layout planejados de acordo com a proposta de cada ambiente. Espaços verdes para fuga e autorregulação. E zonas sensoriais de baixo, médio e alto estímulo. 

Imagens abaixo foram produzidas pela Clara Brito, 2017.

De acordo com a psicóloga educacional, terapeuta ocupacional e neurocientista dos Estados Unidos, Jean Ayres, uma das principais na área da neuroplasticidade:

Quando o cérebro organiza adequadamente as sensações, o indivíduo consegue responder ao ambiente de maneira eficiente.

Jean Ayres

Por isso a necessidade da concepção de espaços pensados especialmente para esses usuários, além do debate e conscientização para um mundo mais tolerável para as pessoas dentro do espectro.

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