Magda Mostafa e a arquitetura para autistas: como o ASPECTSS mudou a relação entre espaço e autismo

Quando pensamos em acessibilidade arquitetônica, rampas, elevadores, banheiros adaptados, circulação e sinalização costumam aparecer primeiro. Mas a barreira também pode estar no som de um ambiente, na iluminação, no excesso de estímulos visuais ou na dificuldade de compreender e antecipar a organização de um espaço.

Wagner Beethoven
08/31/2026 · 14 min de leitura Comentar
Magda Mostafa e a arquitetura para autistas: como o ASPECTSS mudou a relação entre espaço e autismo
Biblioteca ampla com estantes de madeira, áreas de leitura individuais e coletivas, vegetação integrada ao ambiente, iluminação natural e piso com sinalização tátil. Pessoas de diferentes idades leem, circulam e utilizam o espaço.

Há mais de duas décadas, questões como essas fazem parte do trabalho da arquiteta e pesquisadora Magda Mostafa, uma das principais referências internacionais nos estudos sobre arquitetura e autismo.

Professora e Associate Chair do Departamento de Arquitetura da American University in Cairo (AUC), no Egito, Mostafa também é codiretora da comissão de educação e do conselho de validação UNESCO-UIA e design associate do escritório Progressive Architects, no Cairo. Seu trabalho se concentra em design inclusivo e, especialmente, na relação entre autismo e ambiente construído. Dessa pesquisa nasceu o Autism ASPECTSS™ Design Index, conjunto de princípios que relaciona decisões arquitetônicas com diferentes experiências sensoriais de pessoas autistas.

Mulher de cabelos longos e óculos fala ao microfone durante uma apresentação, gesticulando com as mãos diante de uma tela iluminada. Ela é Magda durante uma apresentação pública
Magda Mostafa durante apresentação sobre seu trabalho. (Foto: American University in Cairo/AUC.)

Uma arquiteta diante de um problema sem referências

A origem dessa pesquisa remonta a 2002, quando Mostafa foi convidada a trabalhar no projeto de um espaço educacional para crianças autistas no Egito. Ao procurar referências que orientassem as decisões arquitetônicas, encontrou uma lacuna. Havia pouca orientação sistematizada sobre como características físicas e sensoriais dos ambientes poderiam afetar pessoas autistas. Em relato publicado pela AUC, ela conta que esperava encontrar nos manuais de arquitetura recomendações semelhantes às existentes para outras deficiências, mas não encontrou uma seção equivalente dedicada ao autismo.

“I naively thought I’d open up our references […] but there was absolutely nothing.”

Em tradução livre: “Eu, ingenuamente, achei que abriria nossas referências […] mas não havia absolutamente nada.”

Magda Mostafa, em entrevista para a American University in Cairo.

A falta de referências transformou um problema de projeto em uma questão de pesquisa. Mostafa passou a investigar como características do ambiente construído poderiam interferir na experiência de pessoas autistas. O trabalho inicial envolveu professores, familiares e cuidadores, além de observações e experimentos em ambientes educacionais. Em 2008, ela publicou “An Architecture for Autism: Concepts of Design Intervention for the Autistic User”, artigo que apresentou parte dessa investigação e estabeleceu as bases da abordagem que continuaria desenvolvendo nos anos seguintes. O ASPECTSS seria publicado em 2013 e detalhado em trabalhos posteriores sobre escolas, residências e outros tipos de ambiente.

O que é o Autism ASPECTSS?

ASPECTSS é um acrônimo formado por Acoustics, Spatial Sequencing, Escape, Compartmentalization, Transition Spaces, Sensory Zoning e Safety. Em português, os conceitos podem ser entendidos como acústica, sequenciamento espacial, escape, compartimentalização, espaços de transição, zoneamento sensorial e segurança. Em 2014, Mostafa publicou “Architecture for Autism: Autism ASPECTSS™ in School Design”, artigo que apresenta esses princípios como uma ferramenta para orientar o desenvolvimento de projetos arquitetônicos, inicialmente com foco em ambientes escolares.

Acoustics, ou acústica, considera o controle de ruídos de fundo, ecos e reverberação conforme a atividade realizada no ambiente. Spatial Sequencing, ou sequenciamento espacial, organiza os espaços de maneira compreensível e previsível, considerando a sequência de atividades e deslocamentos. Escape prevê locais nos quais a pessoa possa se afastar temporariamente de ambientes com muitos estímulos e encontrar condições sensoriais mais controladas. Esses espaços podem ser pequenas áreas dentro de uma sala ou locais distribuídos pelo edifício.

Compartmentalization, ou compartimentalização, procura deixar mais clara a função de diferentes áreas e reduzir informações concorrentes. Transition Spaces são ambientes intermediários entre espaços com características sensoriais distintas. Sensory Zoning, ou zoneamento sensorial, acrescenta outra lógica para organizar o edifício: além da função de cada ambiente, considera a intensidade dos estímulos presentes, permitindo pensar em zonas de alto e baixo estímulo e nas transições entre elas. Safety, ou segurança, completa o índice com a atenção aos riscos relacionados ao uso dos espaços.

Infográfico apresenta os sete princípios do Autism ASPECTSS: acústica, sequenciamento espacial, escape, compartimentalização, transição, zoneamento sensorial e segurança, representados por diagramas de ambientes arquitetônicos.
Os sete princípios do Autism ASPECTSS™ Design Index relacionam características do ambiente construído com diferentes aspectos da experiência sensorial de pessoas autistas: acústica, sequenciamento espacial, escape, compartimentalização, transição, zoneamento sensorial e segurança. (Crédito: Fonte: Autism ASPECTSS™ Design Index, Magda Mostafa. Ilustração: Espectro na Pauta.)

Os sete princípios não devem ser lidos como uma receita para criar um edifício universalmente adequado a qualquer pessoa autista. Som, iluminação, circulação, organização espacial e intensidade dos estímulos podem funcionar como facilitadores ou barreiras, mas pessoas autistas não têm uma experiência sensorial única. Enquanto uma pessoa pode ser muito sensível a determinados sons, outra pode buscar estímulos sonoros ou ter necessidades diferentes. O ASPECTSS ganha relevância justamente por colocar essas variáveis dentro da discussão arquitetônica, não por oferecer uma planta pronta de como deve ser um espaço “para autistas”.

O impacto do ASPECTSS

O trabalho começou ligado principalmente aos espaços educacionais, mas não ficou restrito a eles. Em 2014, o conjunto de pesquisas que deu origem ao ASPECTSS recebeu o UIA International Architecture for All Research Award, concedido durante o Congresso Mundial da União Internacional dos Arquitetos, em Durban, na África do Sul. Desde então, os princípios apareceram em projetos e pesquisas de diferentes escalas. O site oficial do ASPECTSS registra trabalhos em cinco continentes, enquanto a AUC cita aplicações que vão de intervenções em salas de aula a projetos urbanos.

Uma das expansões ocorreu no ensino superior, com o desenvolvimento de orientações para a Dublin City University (DCU), na Irlanda. Levar essa discussão para uma universidade ajuda a romper uma associação ainda recorrente entre autismo, infância e ambientes terapêuticos. Pessoas autistas crescem, estudam, trabalham, moram sozinhas ou acompanhadas, frequentam equipamentos culturais e circulam pelas cidades. Se as condições sensoriais de um espaço podem produzir barreiras, a questão também precisa chegar a esses ambientes.

A escala urbana entrou nessa discussão. A AUC registra a participação de Mostafa no desenvolvimento de uma comunidade de aproximadamente 500 mil metros quadrados nos Emirados Árabes Unidos, orientada por princípios do ASPECTSS e do design universal. O salto entre uma sala de aula e um empreendimento dessa dimensão mostra como a pergunta inicial da pesquisadora se ampliou ao longo dos anos: como considerar diferentes formas de perceber e experimentar o espaço desde o momento em que ele é projetado?

“I see ASPECTSS as an integral step toward positioning autism more centrally within the dialogue about universal and inclusive design.”

Em tradução livre: “Vejo o ASPECTSS como um passo para colocar o autismo de forma mais central no debate sobre design universal e inclusivo.”

Magda Mostafa, para a American University in Cairo.

O impacto do trabalho ultrapassa, portanto, a formulação de sete princípios. Mostafa ajudou a colocar a experiência sensorial dentro do debate sobre acessibilidade do ambiente construído e abriu uma frente de investigação que passou a ser desenvolvida, aplicada e também questionada por outros pesquisadores.

E no Brasil?

O ASPECTSS surgiu fora do Brasil, mas Mostafa aparece como referência em estudos brasileiros sobre arquitetura, autismo, ergonomia, desenho universal e ambientes sensoriais. Não existe uma versão brasileira oficial do índice, nem suas recomendações fazem parte de uma norma nacional. O que existe é uma produção acadêmica que dialoga com esse trabalho e o combina com outras abordagens para estudar escolas, centros de atendimento e residências.

Em 2021, Helena Rodi Neumann, Larissa Akemi Silva Miyashiro e Larissa Victorino Pereira publicaram na revista Estudos em Design o artigo “Arquitetura Sensível ao Autista: Quais diretrizes de projeto adotar?”. As autoras revisaram recomendações presentes na literatura e analisaram dois projetos acadêmicos: o Centro Integr.Aut, desenvolvido por Miyashiro como Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), com implantação proposta para Campo Grande, e o Centro Cultural Sensível ao Espectro Autista, desenvolvido por Pereira na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Os dois aparecem no artigo como estudos de caso, mas é importante fazer a distinção: são propostas acadêmicas de arquitetura, e não dois equipamentos construídos e avaliados em funcionamento.

Diagrama arquitetônico do Centro Cultural Sensível ao Espectro Autista mostra os pavimentos do projeto e destaca ambientes relacionados a diferentes estímulos sensoriais, como áreas visual, tátil, de silêncio, reverberação e jardim.
Diagrama de estímulos do Centro Cultural Sensível ao Espectro Autista, proposta acadêmica desenvolvida por Larissa Victorino Pereira em 2021. O projeto organiza ambientes com diferentes características e intensidades de estímulos sensoriais. (Crédito: Larissa Victorino Pereira, 2021.)

Na Universidade de Fortaleza (Unifor), Mariana Ribeiro de Castro e Karla Patrícia Martins Ferreira seguiram outro caminho. Em vez de desenvolver um projeto, fizeram uma revisão integrativa da literatura sobre ambientes físicos inclusivos para crianças autistas. A busca encontrou 540 artigos publicados entre 2011 e 2021. Depois da aplicação dos critérios da pesquisa, 22 fizeram parte da revisão final. As autoras organizaram os resultados em cinco temas recorrentes: legibilidade espacial, organização em compartimentos, zoneamento sensorial, diversidade de configurações espaciais e segurança. O levantamento também expõe uma limitação importante desse campo de pesquisa: ainda são necessários mais estudos empíricos sobre intervenções físicas e sensoriais, com amostras maiores e avaliação dos espaços.

A discussão brasileira também chegou ao ambiente doméstico. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Luiza Ho desenvolveu a dissertação Residências para pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA): arquitetura e necessidades, defendida em 2020. O estudo procurou entender como ergonomia, acústica, conforto térmico, iluminação e conforto visual interferem no cotidiano de pessoas autistas e analisou qualitativamente residências no Brasil para chegar a recomendações de projeto.

Em 2024, Larissa Leticia Andara Ramos e Yasmin Franco Lopes, da Universidade Vila Velha, publicaram na revista Gestão & Tecnologia de Projetos o artigo Arquitetura de interiores inclusiva: ambientes residenciais sensíveis a crianças com transtorno do espectro autista. A pesquisa nasceu de um Trabalho de Conclusão de Curso e combinou fundamentação teórica com um ensaio de adequação de um apartamento. As recomendações tratam de conforto, segurança, autonomia, integração dos ambientes, legibilidade espacial, estímulos sensoriais e redução de riscos. As próprias autoras fazem uma ressalva que ajuda a colocar todos esses estudos em perspectiva: o ensaio não pretende universalizar suas diretrizes ou servir como solução generalista. A arquitetura precisa responder também às características singulares das pessoas que ocupam cada espaço.

Pesquisas na Paraíba

O diálogo com o trabalho de Mostafa também aparece no Nordeste. Em 2023, Maria Carolina Santos Vieira apresentou na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) o trabalho Instituto Casa Azul: estudo preliminar de centro de atendimento a crianças no Transtorno do Espectro Autista na cidade de Solânea/PB. O projeto acadêmico reuniu referências de arquitetura sensorial e diretrizes associadas ao trabalho de Mostafa para desenvolver a proposta de um espaço de atendimento para crianças e adolescentes autistas.

No mesmo ano, Sheila Rodrigues de Albuquerque defendeu no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPB a dissertação Percepções singulares à luz do Design Universal e da Arquitetura Sensorial: avaliação do Centro de Atendimento ao Autista em João Pessoa-PB. Aqui existe uma diferença importante em relação aos projetos acadêmicos citados anteriormente: Albuquerque investigou um ambiente de atendimento existente. A pesquisa relaciona Design Universal, arquitetura sensorial e Autism ASPECTSS Design Index para estudar como as características físicas de ambientes de reabilitação interferem nas experiências sensoriais de pessoas autistas.

Esses trabalhos ajudam a mostrar como o ASPECTSS chegou ao debate brasileiro. O índice não se transformou em norma ou método único. Ele aparece como uma das referências usadas por pesquisadores para projetar, avaliar espaços e formular novas perguntas. Nesse debate também entram ergonomia do ambiente construído, desenho universal, arquitetura sensorial, conforto ambiental e outros campos que investigam a relação entre pessoas e espaço.

A norma brasileira é suficiente?

A chegada dessa discussão ao Brasil levanta uma questão importante. O país possui uma referência técnica consolidada para acessibilidade no ambiente construído, a ABNT NBR 9050, que estabelece critérios e parâmetros para edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. A norma trata de condições de acesso, circulação, alcance, sinalização e uso dos espaços por pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.

Mas cumprir a NBR 9050 garante que um ambiente seja sensorialmente acessível para uma pessoa autista?

A arquiteta autista Carol Cardoso discutiu essa questão em um artigo publicado no Canal Autismo. Cardoso observa que a NBR 9050 não traz orientações específicas sobre autismo e argumenta que ambientes podem cumprir seus requisitos e, ainda assim, apresentar barreiras para pessoas autistas.

Essa constatação não reduz a importância da norma. Ela aponta para aspectos da experiência do espaço que ainda exigem discussão. Reverberação sonora, intensidade e variedade de estímulos, previsibilidade dos ambientes, iluminação, transições espaciais e disponibilidade de locais para regulação sensorial podem interferir na possibilidade de permanecer, compreender e usar um espaço com autonomia e conforto.

Duas fotografias do Centro de Atendimento ao Autista de João Pessoa mostram uma sala interna com tatames coloridos, bola e janela, e uma área externa gramada com brinquedos de parque.
Sala TEACALMA (esquerda) e área externa (direita) do Centro de Atendimento ao Autista de João Pessoa (PB), avaliadas em pesquisa de Sheila Rodrigues de Albuquerque e Angelina Dias Leão Costa. O estudo analisou o espaço a partir dos princípios do Autism ASPECTSS Design Index e identificou os dois ambientes como utilizados para regulação sensorial. (Crédito: Albuquerque e Costa, 2023.)

Mais de vinte anos depois de Magda Mostafa procurar referências para projetar um espaço educacional no Egito e encontrar uma lacuna na literatura arquitetônica, pesquisadores continuam investigando algumas das perguntas que surgiram daquele problema. Nesse percurso, o ASPECTSS ganhou aplicações em diferentes escalas, passou a dialogar com outras abordagens e chegou a pesquisas brasileiras sobre escolas, moradias e espaços de atendimento.

Seu impacto talvez esteja justamente nessa mudança de perspectiva. O ASPECTSS não encerrou a discussão sobre como projetar ambientes acessíveis para pessoas autistas. A contribuição de Mostafa foi ajudar a colocar essa discussão dentro da arquitetura.

Referências e leituras

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